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Por que eu não vou estar no Instagram

Uma das perguntas que mais ouço quando alguém descobre que tenho um site, um blog e projetos publicados é: "Você está no Instagram?" A resposta é não. E quando digo isso, a próxima pergunta, quase sempre, vem com um tom de conselho gentil: "Mas você não acha que deveria?"

Não. E o motivo é menos sobre a plataforma e mais sobre o tipo de atenção que ela cultiva.

O problema não é o formato

Não tenho nada contra vídeos curtos, carrosséis ou imagens. Formato é formato. O problema é a economia de atenção em que esses formatos operam. O Instagram — e plataformas similares — é projetado para capturar atenção no modo mais reativo possível: scroll, estímulo, recompensa, scroll. O algoritmo não otimiza para reflexão. Otimiza para engajamento — e engajamento, na prática, significa ativar o mesmo circuito de craving que nos faz checar o celular 96 vezes por dia.

Eu simplesmente me recuso a competir nesse meio. Não quero meu conteúdo disputando a atenção de alguém que está no modo dopamina, passando o dedo entre um reel de receita, uma foto de viagem e um carrossel motivacional. Não porque essas coisas sejam ruins — mas porque a energia que leva as pessoas até ali quase nunca é a energia com a qual eu quero me conectar.

Uma escolha compreensível — que não é a minha

Conheço profissionais que admiro e que estão no Instagram fazendo trabalho sério. Judson Brewer, psiquiatra e neurocientista da Brown, é um caso emblemático. Ele estuda exatamente os mecanismos de craving que essas plataformas exploram — escreveu The Craving Mind sobre como ficamos viciados de cigarros a smartphones — e mesmo assim está lá, com 36 mil seguidores, compartilhando conteúdo sobre mindfulness e mudança de hábitos.

Eu entendo a escolha dele. Se o objetivo é alcançar o maior número de pessoas com uma mensagem sobre saúde mental, faz sentido ir onde as pessoas estão — mesmo que "onde as pessoas estão" seja um slot machine de atenção. É como um médico que vai a um bar para falar sobre os riscos do álcool. Compreensível. Coerente, até.

Mas não é o meu caminho. Não porque eu seja mais puro ou mais correto — mas porque o custo para mim não é o tempo de postar. É a concessão de participar de um sistema cujo modelo de negócio é, fundamentalmente, cultivar dependência. E eu passei os últimos anos tentando me afastar disso, não me aproximar.

O LinkedIn entrou — por necessidade

Quando escrevi a primeira versão deste texto, dizia que o LinkedIn também ficaria de fora — por enquanto. A energia predominante lá me parecia igualmente desalinhada: otimização de imagem profissional, conversão de visibilidade em receita, personal branding como performance.

E então comecei o curso de Ciência da Computação. Na primeira aula já ficou claro: o LinkedIn não é opcional para quem está construindo carreira em tecnologia. Não se trata de vaidade — é onde estão as oportunidades, os projetos, as conexões que fazem diferença no mundo real.

Então criei o perfil. Não porque mudei de ideia sobre o ecossistema — ainda acho que é dominado por um tipo de performance que não me interessa reproduzir. Mas há uma diferença entre alimentar um sistema e usá-lo com intenção. A mesma lógica do Judson Brewer: ir onde as pessoas estão, sem se perder no processo.

Onde, então?

Aqui. Neste blog que quase ninguém vai ler — e que existe justamente por isso. Quem chega até aqui fez um esforço. Digitou uma URL, ou seguiu um link com intenção. Não está passando o dedo. Está procurando algo.

Essa é a atenção que me interessa. Não a maior. A mais honesta.

Pode ser que eu mude de ideia. Pode ser que em dois anos eu descubra que estava errado e que a melhor forma de contribuir é estar onde o barulho está. Não descarto isso — desconfio de certezas permanentes. Mas hoje, a decisão é clara: prefiro escrever para dez pessoas que leem de verdade do que performar para dez mil que passam o dedo.

O conteúdo que vale a pena encontrar nem sempre precisa te encontrar. Às vezes, basta existir — e esperar por quem está procurando.

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