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Quando fazer fica fácil demais

Em janeiro, participei de um hackathon do governo do DF. Eu ia fazer um projeto. Terminei o primeiro em três dias e pensei: "ainda tenho uma semana... será que dá para fazer outro?" Deu. Entreguei dois projetos técnicos completos — o VIGIL, um detector de dados pessoais em Python com NER, e o FalaIZA, um PWA em Next.js com classificação automática para ouvidoria — em dez dias. Dez dias. Eu, que alguns meses antes não sabia o que era um componente React. Para minha surpresa e alegria, o VIGIL ainda levou primeiro lugar na categoria Acesso à Informação.

Não estou contando isso para me gabar (tá, talvez um pouco). Estou contando porque essa experiência revelou algo que eu não esperava — e que ninguém me avisou sobre usar IA para criar coisas.

O lado bom: confiança que vem de fazer

Tem um discurso comum sobre confiança que me irrita: "acredite em você mesmo e tudo dará certo". Bonito para pôster de academia. Inútil na prática.

O que eu vivi no hackathon foi diferente. Não comecei confiante. Comecei curioso. "Vou tentar e ver no que dá" — era literalmente o que eu pensava no primeiro dia. Terminei o primeiro projeto. Funcionou. Aí veio um pensamento perigoso: "e se eu tentar outro?"

Essa confiança não veio de autoafirmação. Veio de evidência. Fiz uma coisa, ela funcionou, então tentei outra. É o mesmo raciocínio que uso na clínica: você não confia no diagnóstico porque acredita nele — confia porque os exames confirmaram. Confiança que emerge da ação é mais robusta do que confiança declarada. E a IA acelera esse ciclo de forma absurda, porque o tempo entre "tive uma ideia" e "ela está rodando" encolheu de meses para dias.

O lado que ninguém avisa

Mas aqui vem a parte que eu não li em nenhum post de LinkedIn sobre produtividade com IA.

Quando executar fica fácil, tudo que é possível começa a parecer obrigatório. Toda ideia vira um projeto em potencial. Todo problema que você identifica parece estar a três prompts de distância de uma solução. E a tentação de construir mais uma coisa é constante — porque agora você sabe que consegue.

Depois do hackathon, me peguei olhando para tudo como um projeto. Processo burocrático chato na PMDF? "Dá para automatizar." Planilha desorganizada do hospital? "Um app resolvia." Fila do café? Ok, talvez não. Mas a cabeça estava nesse modo.

E aí percebi que precisava de um filtro que não fosse "consigo fazer isso?" — porque a resposta agora era quase sempre sim. A pergunta melhor é: "isso precisa ser feito por mim, agora?"

Produtividade facilitada por IA pode virar distração sofisticada. Você está ocupado, está entregando, está aprendendo — mas está fazendo o que importa? Ou está no piloto automático da execução porque fazer se tornou mais fácil do que parar e pensar?

O filtro

Não tenho uma resposta definitiva. Mas desenvolvi um teste simples que me ajuda: quando estou prestes a começar algo novo, me pergunto se consigo parar sem ansiedade. Se a ideia de não fazer o projeto gera desconforto, é sinal de que a motivação pode ser mais compulsão do que propósito.

A IA é o maior acelerador de capacidade que eu já encontrei. Mas capacidade sem direção é só velocidade. E velocidade sem bússola é uma forma elegante de se perder.

A parte difícil não é mais fazer. É decidir o que não fazer.

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