Por que um pediatra está aprendendo a programar
Tem uma satisfação específica em ver uma coisa que não existia de manhã funcionando à noite. Não é muito diferente de ver uma criança que chegou mal no pronto-socorro ir embora andando — mas o ciclo de feedback é absurdamente mais rápido.
Sou pediatra há vinte anos. Boa parte desse tempo também passei como oficial médico na PMDF, transitando entre clínica, perícia, gestão de saúde mental e ensino. Carreira variada? Sim. Mas foi justamente essa variedade que me preparou para o que veio depois — decidir aprender a programar aos 44 anos e descobrir que isso é, antes de tudo, divertido.
Não estou falando de diversão ingênua. Programar é frustrante com frequência. Você passa horas num bug que era uma vírgula. A documentação mente. Seu código de ontem parece ter sido escrito por outra pessoa (uma pessoa que você não gosta). Mas quando um app roda pela primeira vez, quando um pacote que você publicou aparece no npm e alguém instala (espero que alguém instale!!) — é uma alegria que eu não conhecia.
O que vinte anos de medicina ensinam sobre código
O engraçado é que medicina já me ensinava o método sem eu perceber. Decompor um quadro clínico complexo em hipóteses testáveis, iterar tratamentos, lidar com informação incompleta — é basicamente debugging com consequências mais sérias. Quando comecei a programar com o Claude Code, essa habilidade de raciocínio clínico se transferiu de um jeito que eu não esperava. Os problemas são diferentes, o pensamento é o mesmo.
E a diversificação é uma vantagem real, não um desvio. Meus vinte anos de pediatria são a razão pela qual eu sabia o que construir.
Minha primeira experiência foi o Pediatria-HRT, plataforma que criei para a residência médica do hospital onde trabalho. A necessidade surgiu de um problema prático: as rotinas médicas estavam num repositório obsoleto, que custava caro para o programa manter. A IA generativa como assistente de programação me permitiu algo que eu não imaginava: transformar uma ideia em algo tangível em pouco tempo. Parece mágica, mas é apenas ciência da computação — bastou alguém que conhecia o problema decidir aprender as ferramentas para resolver.
Agora temos cerca de sessenta residentes e preceptores usando rotinas que antes viviam em PDFs esquecidos, além de novas ferramentas práticas que simplesmente não existiam antes.
O PediGrowth, meu primeiro app, nasceu de uma história parecida. Amigos pediatras, vendo que eu estava aprendendo a programar, trouxeram uma queixa comum: as ferramentas de antropometria pediátrica que existem são ou caras, ou difíceis de usar, ou simplesmente feias. Além disso, crianças com Síndrome de Down e Paralisia Cerebral têm curvas de crescimento próprias, publicadas em artigos acadêmicos, mas praticamente nenhum app incorpora essas curvas. Eu sabia que essa lacuna existia porque convivo com ela há anos.
Essa lacuna não existe mais — pelo menos não para quem baixar o app. E ele está em 9 idiomas, isso sem eu falar nenhum deles além de português e inglês.
Diversificar não é dispersar
Existe um preconceito silencioso contra profissionais que expandem para áreas "fora da sua". Como se competência fosse um recurso finito e aprender algo novo significasse perder o que você já sabe. Na prática, para mim, acontece o oposto: cada domínio novo ilumina os anteriores. Gestão me fez melhor médico. Filosofia me fez melhor gestor. Programação está me fazendo melhor em tudo, porque me obriga a pensar com clareza — o compilador não aceita ambiguidade.
Comecei a graduação em Ciência da Computação este mês. Publiquei pacotes open-source no npm. Estou desenhando um curso de IA médica. E continuo atendendo crianças no mesmo hospital de sempre.
Este blog é para documentar o caminho — com as partes que funcionam e as que não funcionam. Se você é um profissional de saúde pensando em aprender a programar, minha sugestão honesta: tente. É mais divertido do que você imagina.